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Ledusha Spinardi

Ledusha Spinardi

Se há um texto imperdível neste emaranhado das línguas é o de Ledusha Spinardi. Poesia, canções, crônicas de jornalista, essa mulher, registrada Leda Beatriz Abreu Spinardi, costura letras em tecido de papel e bytes. Ela tem alma intensa de carioca, mas nasceu em Assis, São Paulo. Mora em Sampa traduzindo livros pra vender e escrevendo poesia pra viver. Já foi parceira de Lobão e Cazuza, Bebel Gilberto, Fernanda Porto e Francis Hime. Ledusha vale cada palavra que captura em sua prosa refinada. Suavemente como quem beija na boca.

 

A praxis da doçura

Ledusha Spinardi

Sem eco algum nessa sexta
sem peito de homem
pra repousar a cabeça
e ouvir o trot…e de seu coração
fiz um bolo
coberto de suspiros.


Eletricidade

música, Fernanda Porto
letra, Ledusha Spinardi

Como numa amorosa cantiga
Hoje, com aquele espanto da primeira dor
Acordei chorando
Rodando o apartamento
Uma entrevista de Godard na mão
Três fantasias na cabeça
O teto tão baixo
Fui até o centro
Lírico Ulisses devorador de milk-shakes

Em passos rápidos dizia pro espelho das vitrines
Alô, Marina Vladi, imitando aquele jeito do cabelo
Alto-falantes das lojas me arrepiam

Por pouco não me sinto enamorada
Aí, soprando um café de máquina
Com a voz do Rei na barriga
Jobim no coração
Espelho caixa de contatos
Assobio no elevador
Uma canção me consola
Enquanto mamãe faz tricô
Penélope distraída
Preciso sair de casa

Se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada

ROMBOS

La femme n’existe pas. (J. Lacan)
Ledusha Spinardi

Marta é tão delicada que escolheu deixar saudades. Lia comprou palmeiras e depois cadê varanda? Virgínia engoliu parafusos, sentindo
a falta dos seus. Lídia aboliu o sexo e agora só vai de ópera e dieta à base de aipo. Silvia trocará as cortinas e as próteses mamárias.
Dulce deixou a análise e mandou o fulaninho, de carrinho, enfim, às favas. Vilma atravessa os domingos nadando em champanhe e ciúme.
Suzana amou sem reservas e casou-se com o bandido. Clarice fechou-se em copas quando a mãe foi fazer ginástica. Paula se faz de artista,
mas é mesmo uma mimada. Sílvia ensaiou tanto o tapa que desmilingüiu-se em beijos. Marilena era cretina, só mandava bem no
papo. Laís fez o que não pôde pra salvar o casamento. Eulália queimou suas cartas mas guardou os envelopes. Clara sonha com Veneza enquanto devora suspiros. Renata nem pensa em ter filhos, apesar do alto salário. Norma diz que se mata caso o cachorro só lata. Rita rendeu-se ao gringo, agora que ficou surda.

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