Tags

, , , ,

A negação de São Pedro

A negação de São Pedro

Não há arte na negação, ou como nos versos da música, é preciso habilidade “pra dizer mais sim do que não”. Não é o oposto do sim, mas sua ausência, a bruma que esconde todas as coragens para encarar o mundo, o que contraria a existência.

Mas assim é o brasileiro, o sujeito do contra, o juiz de todos os pecados. O sucesso é objeto de crítica. Usamos a paixão da igreja romana em tudo, na arte recheada de crucifixos e filhos de deus, na tortura, na política e até no futebol.

Flamenguista torce contra o Vasco e vice-versa, torcedores de Bahia e Vitória não vivem sem espinafrar o oposto, palmeirense odia o Corinthians e corintiano pisa no verde. É tudo brincadeira e verdade, produto de uma terra deformada na conquista.

Bandeirantes e Pioneiros

Bandeirantes e Pioneiros

O gaúcho Vianna Moog descreve em “Bandeirantes e Pioneiros“, um livro de 1954, as diferenças de colonização da América do Norte e do Brasil. Para cá vieram homens sem família, para lá, maridos, esposas e filhos.

Na terra de Pindorama, o saque, o estupro e a grilagem como prática. Nos Estados Unidos, o pioneirismo, e o assentamento das colônias. Também houve o faroeste, mas o caboclo foi sempre mais longe e amplo.

Moog era um liberal (participou da aliança homônima contra Getúlio, em 1932), foi cruxificado pelos marxistas do partidão ortodoxo nos anos seguintes, banido das bibliotecas e varrido pra longe do pensamento dito progressista.

Nada mais natural nessa cultura fundada no proselitismo. Criticar é o esporte preferido do brasileiro. Todo mundo entende de futebol, de música, de economia, de sociologia, de jornalismo e se vacilar sabe mais de sua vida que você mesmo.

Afinal, se deus é brasileiro, o brasileiro é filho do homem, o rei do palpite, da opinião tosca sobre tudo. Julgador impiedoso, tal e qual o saqueador português, descrito e declamado por Ruy Guerra no soneto de “Fado Tropical”, com Chico Buarque.

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto,
De tal maneira que, depois de feito,
Desencontrado, eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito,
Me assombra a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa,
Mas meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa

Assim somos. Agora pode criticar.

Anúncios