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Em 1973, Richard Serra, com o apoio de Carlota Fay Schoolman, produziu o vídeo “Television Delivers People”, que aborda, em letreiros subindo sobre fundo azul, o papel da Televisão no controle social. Mínimo e essencial, como convém.

O texto, primoroso, joga na cara de todos que a TV comercial define o mundo de uma maneira que não  ameace o status quo. Vai além e diz que, pra cada dólar investido em equipamentos para lhe enviar essas mensagens, você entra com 40 para recebê-las. Em síntese, o telespectador paga para alguém tomar a decisão por ele. Segue um trecho:

The Product of Television, Commercial Television, is the Audience.
[…]
Television is the prime instrument for the management of consumer demands.
Commercial television defines the world in specific terms.
Commercial television defines the world so as not to threaten the status quo.
Television defines the world so as not to threaten you.
Soft propaganda is considered entertainment.
[…]
Every dollar spent by the television industry in physical equipment needed to send a message to you is matched by forty dollars spent by you to receive it.
You pay the money to allow someone else to make the choice.
You are consumed.
You are the product of television.
Television delivers people.

Consumidor consumido

Consumidor consumido

Internet Delivers People

Internet Delivers People

Em 2008, Ramsay Stirling adaptou o trabalho de Serra e lançou o vídeo “Internet delivers people”. O trabalho foi disponibilizado na rede, mas, misteriosamente, o arquivo foi deletado de diversos servidores. A internet não é fácil, né não? Mas pra tudo tem jeito. Preparei uma nova adaptação, nascida a partir do trabalho de Serra e Carlota e de fragmentos que localizei de Stirling. É uma forma de manter o questionamento vivo.

Se preferir ler o texto sem o vídeo, ele vai a seguir:

INTERNET
ENTREGA
PESSOAS

O produto da internet
e o lucro da internet
vêm dos page views.

A web entrega
pessoas na bandeja
aos anunciantes.

Não existe nada assim
no mundo da comunicação
de massa exceto na web.

Mass media
é o porta-voz das
grandes corporações.

Só o facebook tem
mais de 800 milhões
de pessoas para vender.

Na internet o sujeito
tem o privilégio de
pagar para se vender.

O consumidor é
que é consumido.

É a mercadoria
servida quente.

É vendido em banners,
mensagens e tuitadas
que dá nas redes.

Seus senhores vivem
do seu clique.

Memes, páginas
e frases malucas
não lhe pertencem.

Você é o produto final.

É o produto final
que entrega dados e
e-mails ao google.

Você garante os recursos
financeiros da web.

Tudo aqui é conhecimento
sempre visando o lucro
do provedor.

A web dissemina
conhecimento para
aumentar o consumo
de mercadorias.

Esse país internet
é baseado no controle
de todas as mídias.

A web influencia todos
os setores da cultura
mas dá ênfase à baixaria.

Somos convencidos
diariamente de inverdades
pelas corporações da Nasdaq.

O controle dessas
corporações é o patrono
da propaganda online.

Os negócios da web
só estão comprometidos
com o mercado.

Propaganda é lucro.

A internet já é o principal
instrumento a determinar as
necessidades de consumo.

Ela define nosso
mundo com signos
que ninguém entende.

Define o mundo
de tal maneira para
que não exista ameaça
ao status quo.

Define o mundo assim
por interesses comerciais
não por sua causa.

Aplicativos comerciais para
tablets são considerados
entretenimento.

Entretenimento
é essencialmente
propaganda desse
status quo.

Entretenimento
só quer manter o
status quo.

Administrar portais
é um exercício para
controlar você.

As vendas online
alcançam a todos.

O que está por trás
da notícia publicada
você não sabe.

E é com essa informação
que você analisa o mundo
a acreditar que ele
é verdadeiro.

Você é a mercadoria
controlada pelos
conteúdos multimídia.

O que se diz nas redes
sociais é a verdade
definitiva e a ideia
primordial.

Uma árvore só cai e
Chico Anysio só morre
se estiverem nos
trending topics.

Há conflitos insuperáveis
na tríade da mass media

COMÉRCIO.
INFORMAÇÃO.
ENTRETENIMENTO.

Grandes sites têm
compulsão para
retroalimentar o
status quo.

Para retroalimentar
a distribuição do
poder no planeta.

A internet é dependente
de seus page views
para continuar crescendo.

É dependente dos banners
e add-ons para seguir
mantendo sua escravidão.

Quem controla a rede
controla o mundo.

A WEB NÃO TEM
RESPONSABILIDADE.

A WEB NÃO TEM
RESPONSABILIDADE
COM GOVERNOS.

NÃO É
RESPONSÁVEL POR
SEUS EMPREGADOS.

NÃO É
RESPONSÁVEL POR
SEUS INTERNAUTAS.

Internautas não estão
organizados para lutar
por seus direitos.

Internautas compram
mercadorias de empresas
montadas em lugar
algum.

Portais de notícias
amenizam seu noticiário.

Cada centavo que eles
investem em equipamento
tem contrapartida
quarenta vezes maior
de sua parte.

Você paga para que
alguém faça as escolhas
no seu lugar.

Você é a mercadoria
no ciberespaço.

A web é o motoboy
do status quo.

Marcos Venancio
Jornalismo EmPerfeito
2012

Inspirado em
Television Delivers People

Áudio
Original

Dedicado a
RICHARD SERRA
CARLOTA FAY SCHOOLMAN
CÁSSIA GERALDI MONTENEGRO

INTERNET
ENTREGA
PESSOAS

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