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Ita puã

Ita puã, pedra que ronca

Praia de Itapuã, anos de 1970. Barbosinha decide levar os sobrinhos à praia, que naquela época era o paraíso na terra, com peixes que pulavam na areia, ossos de baleia da época das caçadas comandadas do alto do Morro do Vigia e águas translúcidas como aqueles vidros de magnésia de Phillips.

A garotada nem espera segunda ordem e corre pra água, se esbalda na marola. Mas um deles, mais afoito, se afasta em direção à pedra da Gudia a nado. A correnteza não está pra peixe pirralho e Barbosinha chama um pescador de sua turma de dominó.

– Acuda aqui. Pega aquele menino lá que ele vai se afogar…

– Pode deixar, seu Antonho.

Canoa de Itapuã

Canoa de Itapuã

E o pescador parrudo cai na água e dá vigorosas braçadas na direção do menino afoito. Nada crawl (só depois a gente soube que o nome do estilo era aquele), na pegada forte dos nativos, alternando braços na girada, rosto enfiado na água, pernas em vai-e-vem. Mas o garoto se afasta mais e mais.

Depois de 20 minutos de peleja para alcançar o traquina, o pescador retorna a terra.

– Não dá, seu Antonho. Esse minino é o capeta, tá indo muito longe e daqui a pouco chega a ita puã. E óia que a pedra que ronca é coisa de iemanjá…

– Pega uma canoa, chama mais uns três ou quatro. Essa criança vai se afogar…

Ita puã e o farol

Ita puã e o farol

O cidadão do mar correu a chamar companheiros para tripular uma canoa que pudesse alcançar o pirralhinho. Mas, àquela hora do dia, estavam todos na lida ou bebendo pinga na tulha de Arlindo Boi. Não achou vivalma que aceitasse o desafio.

Sim, porque àquela altura era um desafio, questão de honra, alcançar o menino danado que já tinha nadado até a pedra que ronca e começava a voltar. Colocou a canoa sozinho no mar e começou a remar na direção daquele pontinho escuro dentro d’água.

Alcançou a criatura no meio da travessia entre a Gudia e Ita puã e gritou, zangado.

– Sobe aqui seu minino encapetado!

O paraíso perdido

O paraíso perdido

Nem resposta ouviu. O garoto começou a nadar rapidamente para a praia, num ritmo desafiador, do tipo me pegue se for capaz.

Mais o pescador remava, mais suava, e a criaturinha continuava à frente. Braço direito, mão espalmada, tchum na água. Braço esquerdo, mão espalmada, pernas no sobe-e-desce de sereia, cabeça enfiada, respiração só a seis ou oito braçadas.

Chegou primeiro e correu na direção do tio. O pescador, em segundo, ainda teve tempo de ouvir.

– Não tinha um barco com motor de popa, não, tio?

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