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David Bowie e a Era da Aparência

David Bowie e a Era da Aparência

Há dias um assunto martela minha cabeça: o mundo pós-revolução cibernética e sua gente conectada ao extremo, mas, ao mesmo tempo, cada vez menos espontânea. Sou de outra época, a certidão de nascimento admite, mas como as pessoas podem ter mudado tanto (pra pior?) em plena era do compartilhamento?

Há, claro, uma revolução ocorrendo por baixo dos panos, mas, na média, “seguidores” e “amigos” nas redes sociais são cada vez mais tímidos e menos imperativos no que realmente importa. No que não tem importância, postam memes em profusão, lições de moral, opiniões estapafúrdias e frases sem nenhum sentido.

Tudo bem. Tá liberado. Mas e a vida de verdade? Onde ela entra? De fato, não aparece, porque ninguém realmente mostra sua cara. As redes são apenas a versão eletrônica das vidinhas de kitnet (ainda é assim que se chamam?) e dos corações suburbanos. Não estou a falar dos escrotos de ocasião (há muitos), mas do sujeito boa praça que te deseja “bom dia” com sinceridade.

John Lennon não imaginou direito...

John Lennon não imaginou direito...

Sabe o que eu acho: estamos no apogeu da Era da Aparência, dos davids bowies camaleônicos. Depois de massacrados pela propaganda que se intensifica a partir da metade do século 20, da expropriação das utopias e da pasteurização do “make love, not war”, proletários e patrões aburguesaram-se. John Lennon deve se virar na cova quando tocam “Imagine” pra embalar grupos desagrupados de autoajuda.

Ganhamos uma face nova nesses tempos da cibercultura. Zuckerberg percebeu e atirou no alvo certo em 2004. Todos queriam um “face book”, of course. Meu novo rosto (e por extensão meu corpo e minha ideologia) numa versão nova e insossa, como convém a um cidadão transformado em produto, em peça de publicidade.

Assinando petições inócuas do Avaaz, postando palavras “revolucionárias”, mas também inúteis, e livrando a consciência, a Era da Aparência transforma o mundo em leite longa vida. A caixa é bonita, o cheiro é bom e o sabor agrada a todos os gostos. Mas não serve ao prazer, não provoca revoluções, nem faz pensar com clareza. É o prato-feito da mesmice, do mundo pela lente do “deixa tudo como está”.

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