Cowboy fora da lei

Cowboy fora da lei

O trabalho do jornalista não tem o glamour que a propaganda e até mesmo alguns do próprio meio alardeiam. Ao contrário do que o cidadão comum imagina, quem dita a pauta é o dono da empresa, o anunciante ou o publicitário que produz o comercial que vai nos espaços entre as notícias no jornal, na TV ou no rádio.

Mas não é só isso, porque a sopa tem também o tempero da opinião e de quem paga as contas do jornalista. E usamos argumentos, alguns válidos, outros nem tanto, para convencer o cidadão que está do outro lado a acreditar na verdade que contamos. Ainda não acabou. Também é preciso checar e rechecar e confirmar o que já sabemos.

Dois fatos chamaram a atenção nestas quarta e quinta. O primeiro, uma mera, mas milionária, notícia esportiva. Antes do jogo do Bahia com o Feirense, todo mundo sabia que Luxemburgo estava demitido do Flamengo e Joel Santana seria seu substituto. Mas quem vai dar uma notícia dessas antes da autoridade rubro-negra afirmar com todas as letras? Só os blogs do jornalismo cidadão.

E nós, jornalistas profissionais, não tivemos a coragem de assumir o risco de afirmar o que todos já sabiam. Temos muito medo da “barrigada”, que é como chamamos no jargão a notícia não confirmada. Aliás, alguém já notou como algumas profissões produzem uma língua própria? Advogados, economistas e jornalistas são craques nisso.

Bom. Joel vai pro Flamengo, Luxa foi demitido. O cidadão que quer saber o que acontece e pode influenciar sua vida provavelmente gostaria de saber disso na quarta mesmo. Creio que ele passaria a acreditar um pouco mais no jornalismo se tivéssemos revelado, com coragem, o que sabíamos. Mas preferimos sempre a cômoda posição de esperar.

Outro fato bastante sabido desde a quarta era a extensão do estrago que estava por vir com a greve da PM. Mas pra que alarmar a população? Na quinta, quando se soube de arrastões (alguns verdadeiros, outros forjados pelos grevistas, mas igualmente perigosos), ligamos para parentes e amigos que estavam na rua para alertar do perigo, mas não “telefonamos” para o cidadão que não conhecemos.

Ainda era necessário checar e rechecar. E há também o peso da publicidade dos governos. Por exemplo, o que faz a publicidade da prefeitura de Salvador no intervalo do JN senão garantir que o “Desocupa” não tenha espaço no noticiário? No caos desta quinta, em Salvador, li num grande portal uma reportagem que alegava não haver confirmação dos arrastões.

Abaixo da “notícia”, dezenas de comentários de internautas reportavam arrastões em vários bairros. No Facebook, outros tantos. No mesmo FB e no Twitter, alguns jornalistas profissionais alertavam para o risco de pânico. Será que não telefonaram, como eu, para alertar amigos e parentes? Ah! tem ainda o Carnaval. Muitos turistas poderiam deixar de vir à cidade gastar seus reais ou dólares na Soterópolis modorrenta da publicidade.

Quando se fala em queda da audiência da grande imprensa sempre aparecem explicações, geralmente no jargão, com “teorias” que imputam o problema a fatores externos ou à concorrência dos blogs e redes sociais. Não temos coragem de olhar pra dentro, porque as causas estão no modelo que perpetuamos.

O cidadão ligado nas redes, que avança agora sobre os grupos (não gosto do termo classe, acho que por influência do marxismo) C e D, que cresceram por conta da melhoria da divisão da renda, não quer mais ser tutelado ou tratado como consumidor de sabonete e sabão em pó. Ele não precisa mais do jornalista e de seu jargão. Raul Seixas já dizia em Cowboy fora da lei: “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.

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