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Gracindo vivia na enxada de sol a sol. Quer dizer, isso não era bem viver. Era viver igual a cachorro, mesmo. Tirava seu sustento da mandioca, na roça. Milho e feijão, só quando São Pedro mandava alguma água lá de cima. Por baixo do chapéu de folha de licuri, via passar todo dia aquela moça, filha do homem mais rico daquele fim de mundo. Porta do sertão ou vão de entrada nas terras de Belzebu?

Casamento

Romance do destino

Lindaura, a moça, às vezes olhava, de resvalo, a lida do camponês Gracindo. Nada acintoso, que a moral da época não permitia e ela, temente aos ensinamentos que adquirira desde a infância, não era besta de ir contra. O velho coronel Epaminondas, pai da gazela, era daqueles ossos duros de roer de então.

Mas o agricultor pobre não se conformava com o destino. Conseguiu emprestados uns tostões com uma tia e trocou a faina diária na roça pelo pequeno comércio. Abriu uma vendinha. Apenas uma porta, farinha de guerra, alguma cachaça, umas traquitanas buscadas em Feira de Santana. Vendia pouco, mas foi crescendo. Colocou umas vassouras feitas na região para vender, incluiu uns brinquedos de criança toscamente feitos de madeira.

Tomou coragem. Foi falar com Epaminondas que queria namorar-noivar-casar com Lindaura. O velho coronel não baixou a guarda

– Tá pensando o quê da vida, rapaz! Xispa daqui.

Gracindo voltou a sua vendinha, mandou vir da capital uns artefatos novos, fabricados num material que o povaréu chamava de “prástico”. Pratos, pequenos cestos, garrafas de água. Foi um sucesso. Os camponeses da porta do inferno olhavam aqueles trastes como índio os badulaques dos conquistadores.

O pequeno comerciante soube por um parente que chegou de Salvador que a moda lá agora era um suco de envelope, em pó. Não se fez de rogado.

– Vou agora mesmo pra capital conhecer essa belezura. O povo daqui vai gostar das facilidades.

Comprou centenas de envelopes do tal suco em pó. Voltou com o o saco cheio também de novos sapatos de plástico, chinelos e chapéus. A vendinha agora era um armazém e Gracindo retornou a Epaminondas.

– Sei que o sinhô não credita, mas posso mantê sua filha com os mesmo luxo de sua casa.

E fez a promessa da qual nunca se arrependeria.

– Nunca vou bater na sua porta pra pedir arrego. Quero casar com Lindaura.

O coronel rabugento olhou bem nos olhos do agora dono de armazém. E deu a palavra final.

– Se Lindaura aceitar, tá bem pra mim. Mas não me apareça aqui na porta pra implorar qualquer ajuda.

Marcou-se a data do casório.

Gracindo e Lindaura aceitaram-se perante o padre na velha capela caindo aos pedaços.

Com a ajuda dela, que fazia doces de banana e goiaba, o negócio prosperou ainda mais. O armazém cresceu de tamanho, abriu filial em Feira de Santana e tornou-se referência de novidades para o povo da região. O antigo camponês virou o jogo a seu favor.

Com Lindaura, teve dez filhos. Todos estudaram nas boas escolas da Princesa do Sertão. Alguns viraram advogados, outros seguiram o pai e entraram para o comércio, as moças casaram, outras também estudaram. Gracindo só esteve na casa do velho coronel como visita. Nunca lhe pediu um centavo de ajuda. Manteve a palavra até o túmulo.

Quando seu Epaminondas morreu, os filhos insistiram com ele e a mãe para cobrar participação no testamento. Gracindo disse não. Lindaura, não, também. Não quiseram nada. Tinham um ao outro e isso bastava.

* Essa história, verdadeira, embora com algum romance, me foi contada por um dos filhos de Gracindo e Lindaura, Carlos, que, solitário numa mesa, puxou conversa. E isso aconteceu ontem (20/9). Escrevi para mostrar que o texto está tão vivo como a vida deste casal.

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