Lindo lago do amor! Voltei a ouvir essa canção de Gonzaguinha e encasquetei com ela. O que será esse diabo de lago? Ora, simples: “um banho de água fresca!”. Mas será? Num comentário anterior citei Platão (andei relendo O Banquete para reencontrar alguma verdade depois de uma temporada de feicebuqui e de tuíter). Vamos a ele.

O que o filósofo grego tem a ver com as calças de Gonzaguinha? Ora bolas, uma das concepções mais difundidas no mundo ocidental é a do “amor platônico”, quase sempre com o sentido deturpado de amor sem sexo, como uma lagoa dourada, divina (olha eu metendo o bedelho na baboseira global Amor e Sexo!).

Platão, Sócrates e outros tinham interesse erótico, principalmente nos rapazes-discípulos. Então, como poderia o primeiro separar eros do intelecto? Só dourando o lago de novo, creio. Para resolver a questão, os franceses inventaram os termos “amour platonique” (amor não-sexual) e “amour platonicien” (o amor segundo Platão).

Diotima Mantinea

Diotima Mantinea

Modernamente, a expressão “amor platônico” é utilizada separando-se a diversidade da visão de amor por Platão, o que deturpa seu sentido. No diálogo O Banquete, Platão inclui Sócrates e num trecho sobre o amor ele é o homem mais importante. Explica que na juventude foi iniciado na filosofia do amor por Diotima de Mantinea.

Diotima era uma sacerdotisa, não se sabe se inventada por Platão ou se existiu de fato na Grécia antiga. Em síntese, é ela que ensina a Sócrates a genealogia do amor. Uma mulher, sacerdotiza e filósofa, segundo Platão, está na origem do conceito socrático-platônico do amor.

O lago dourado do amor vem sendo retocado há milênios, por poetas, pintores e filósofos. Mas embora o amor, no ideal platônico, não tenha fundamento num interesse específico, mesmo sexual, mas na virtude, ele não descarta o contato entre os corpos. Então tá, ainda bem!

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